O atentado de Nice e a crise política francesa

O massacre ocorrido em Nice nos festejos da data nacional francesa suscitou uma onda de indignação e de perplexidade no país. Terceiro atentado de grande porte cometido nos últimos 18 meses, o drama de Nice foi precedido por atos limitados de terrorismo perpetrados em vários pontos da França.

No plano global os especialistas apontam uma mudança na estratégia do chamado Estado Islâmico. Perdendo progressivamente os territórios que havia conquistado na Síria e no Iraque, o EI diminuiu o recrutamento de jovens muçulmanos ocidentais e passou a incentivar os atentados nos próprios países europeus. À organização piramidal usada por Bin Laden para dirigir a partir do Afeganistão os ataques de setembro de 2001 nos Estados Unidos, sucederam os atentados descentralizados. Agindo em grupos, jihadistas às vezes aparentados (como no Charlie Hebdo em janeiro de 2015) ou egressos de turmas de bairros e ex-combatentes do EI na Síria, passam ao ataque para provocar o maior número de vítimas possível, como no mês de novembro passado em Paris.

No caso do terrorista de Nice, o quadro é ainda mais preocupante. Os indícios recolhidos até agora mostram um indivíduo violento, psicopata, pouco dado à religião, cuja adesão ao radicalismo islâmico ocorreu em algumas semanas apenas. Embora tenha sido premeditado, e reivindicado em seguida pelo EI, o atropelamento da multidão que passeava no calçadão de Nice, dificilmente poderia ter sido detectado pelos serviços de segurança. Totalmente mobilizado durante a Eurocopa, quando foram evitados dois atos terroristas, o aparato policial e governamental foi pego desprevenido pelo drama de 14 de julho. A menos de um ano do final de seu mandato, François Hollande vê seu prestígio baixar mais ainda. Nos precedentes atentados, os franceses se uniram em torno do governo e a popularidade de Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls aumentou. Agora o contexto mudou, Hoje (18), ao participar no calçadão de Nice de uma cerimônia oficial em memória das vítimas do atentado, Manuel Valls foi vaiado por parte dos presentes.

Uma sondagem realizada após o atentado mostra que 67% dos franceses não confiam no presidente e no seu governo. De um atentado ao outro, parte da opinião é tomada pelo desalento e pelo sentimento de impotência diante da violência que se banaliza. Alguns setores, incluindo aí certos pré-candidatos à eleição presidencial de abril de 2017, pregam o reforço da segurança e o cerceamento das liberdades públicas.

Um belo texto do escritor e historiador Jean-Christophe Attias, publicado na sua página do Facebook, rebate esse sentimento: "Simplesmente continuar a viver, é talvez simplesmente começar a se habituar... Não basta respirar para resistir... Resistir, é sempre recusar a se habituar. É acolher o sofrimento, cada vez, como se ele fosse novo. É recusar sacrificar a vida viva e a democracia à ilusão da ordem e da segurança."

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO
Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV/EESP. É membro da Academia Europaea.

UOL Notícias - SP
Publicação: 18/07/2016