Causas Imediatas e Remotas da Crise de Abastecimento

O governo virou um “pato manco” podendo se tornar um estorvo atrapalhando os candidatos com propostas mais racionais e sensatas

Quando uma crise de desabastecimento como essa que atingiu o país acontece, geralmente não há uma causa única que a justifique. Não podemos simplificar a questão atribuindo o motivo apenas à política de preços da Petrobrás e desconsiderar as falhas dos governos atuais e passados, tanto na esfera federal quanto estadual.

Houve, sem dúvida, uma grande subida do preço internacional do petróleo e uma expressiva desvalorização do real no período recente, que representam um choque nos preços domésticos do óleo e seus derivados. Qualquer firma privada coloca o preço de um bem homogêneo e comercializado mundialmente baseado no que é precificado internacionalmente. Se não fizer isso, a empresa estará ferindo os interesses dos acionistas e não pode ter capital aberto na bolsa e nem se financiar emitido dívida. Como a Petrobras é uma empresa estatal, se é do interesse do acionista majoritário, no caso o governo federal, não repassar o choque no preço internacional para o preço doméstico, precisa explicitar o subsídio, salientando que todo mundo vai pagar imposto para o preço do combustível se manter em nível mais barato.

O Brasil, além de não ser autossuficiente em petróleo, precisa importar derivados, pois não possui capacidade total de refino. Nós já vimos o filme do que acontece quando a Petrobrás pratica o represamento de preços: os preços das ações da empresa caíram de R$50 para R$5 no governo Dilma. Realmente, nos últimos anos, quando o preço internacional do petróleo estava mais baixo, a queda no valor da estatal foi mais tímida, com a Petrobrás ainda se recuperando do prejuízo de congelamento de preços da administração anterior. Entretanto, a situação se agravou quando a alta do preço internacional do petróleo e a desvalorização do real levaram a nova administração da estatal a repassar para os consumidores. Além disso, o aumento dos impostos estaduais sobre o combustível no período recente também pressionou ainda mais os preços.

Outra grande distorção no mercado relacionada a essa paralisação foi resultado de ações equivocadas do governo anterior quando subsidiou exageradamente a compra de caminhões. As empresas transportadoras e caminhoneiros autônomos tinham crédito pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI) e puderam aumentar muito a frota de caminhões no país. Essa distorção foi agravada pela recessão, que diminuiu a receita de um setor que já estava bastante endividado, explicando em parte o comportamento mais contundente de certos manifestantes.

O atual governo, além de não ter tido sensibilidade para antever a situação dramática da categoria, cedeu em excesso para representantes, que não têm efetivamente o controle sobre os caminhoneiros. A capitulação pode ter sido providencial para dar sobrevida a esse governo já bastante degastado, mas a mensagem que passa é de que agora todos podem criar confusão que vão ter as suas reivindicações prontamente atendidas.

Uma digressão histórica que não podemos nos furtar: a escolha errada por uma logística quase que exclusivamente rodoviária. É impressionante como não conseguimos avançar na diversificação da malha de transportes da mesma maneira como houve um avanço na matriz energética, que hoje não é mais 100% dependente de hidroelétricas.

Esse episódio, ainda que não tenha sido superado completamente, mostra que a “Sarneyzação” do governo Temer é mais profunda do que estávamos supondo nesse momento. O governo virou definitivamente um “pato manco” (definição politicamente incorreta dos americanos para governos em fim de mandado) a partir de agora. Além disso, estamos vendo um caldo de cultura se formando, que pode tornar o presidente Temer num estorvo difícil de esconder nas eleições, atrapalhando os candidatos com propostas mais racionais e sensatas para o próximo mandato.

Marcelo Kfoury Muinhos
Professor e Coordenador do Centro Macro Brasil da FGV EESP

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