MAIS DE MIL PARA CADA UM

De acordo com dados do IBGE, no primeiro trimestre deste ano o PIB brasileiro cresceu cerca de 1%, depois de vários meses e trimestres em recessão. Ufa, até que enfim!

E ficou claro que o crescimento se deveu ao setor agropecuário. De fato, este segmento fundamental da economia nacional teve uma expansão de 13,4% em relação ao trimestre anterior, enquanto a indústria cresceu 0,9% e o setor de serviços ficou estagnado. Feitas as contas subjacentes, verifica-se que o agronegócio contribuiu com mais de 75% do crescimento da economia no período. E, de acordo com os estudiosos, esta deverá ser a participação percentual mínima do agro no avanço do PIB anual em 2017. Não chega a ser uma novidade, embora os números atuais tenham uma explicação: tivemos um ano com bastante chuva em quase todas as áreas agrícolas, salvo uma ou outra região que sofreu com veranicos (períodos de 10 a 15 dias sem chuva e com muito calor, o que prejudicou desenvolvimento das plantações) em janeiro. Isso permitiu um aumento na safra de grãos da ordem de 47,7 milhões de toneladas em relação ao ano passado. Saltamos de 186,6 milhões de toneladas em 2016 para 234,3 milhões em 2017, 25,5% a mais, enquanto a área plantada cresceu apenas 3,7%! Vale uma reflexão: apenas 8 países do mundo todo (Estados Unidos, China, Índia, Rússia, Argentina, Ucrânia, Canadá e Austrália) e mais a UE conseguem produzir uma safra de grãos superior ao acréscimo do Brasil neste ano. Ao acréscimo somente!

Entre os diversos fatores responsáveis por esse salto incrível está a tecnologia tropical sustentável aqui desenvolvida, admirada internacionalmente, que estava pronta, e bastou um bom ano de chuvas para isto ser demonstrado tão claramente.

Mas o que tudo isso tem a ver com o título do artigo? É que hoje somos cerca de 207 milhões de brasileiros. Portanto, produzimos mais de 1,1  tonelada de grãos para cada brasileiro. Os números da FAO dizem que há segurança alimentar para a população cujo país produzir mais de 250 quilos por habitante/ano. Ora, nossos agricultores alimentam tranquilamente 4 vezes mais gente que a demanda dos nossos consumidores. Daí os excedentes para exportação que nos colocam em grande destaque no cenário global: primeiro exportador de café, suco de laranja, açúcar, carne de frango, farelo de soja, soja em grãos, segundo de milho e em óleo de soja, terceiro em carne bovina e quarto em carne suína. E crescendo em algodão e frutas. Somos também o maior exportador mundial de tabaco.

Tudo isso é notável, especialmente se nos lembrarmos de que há 50 anos éramos importadores de alimentos, e hoje ajudamos na segurança alimentar de mais de 150 países, exportando 90 milhões de toneladas de grãos, 6,3 milhões de toneladas de carnes, 28,9 milhões de toneladas de açúcar.
Pena que nem todos os produtores se beneficiem de tanta fartura: com ela, os preços caíram este ano, e as contas não estão fechando para muita gente. Na pecuária de corte, especialmente, os episódios da carne fraca e da JBS derrubaram o valor da arroba no país inteiro.

É por isso que precisamos tanto de um seguro rural digno do nosso agro, como todos os países desenvolvidos já tem.

Mas não foi ainda neste Plano Safra que o seguro foi contemplado como deveria, infelizmente. E vale a pena uma palavra sobre o Plano: diante da crise política que vivemos e seus inevitáveis reflexos na economia, havia o temor de que faltaria crédito para o financiamento da nova safra. Mas isso não aconteceu. A oferta de recursos aumentou 2,5% em relação ao ano passado, chegando a 190 bilhões de reais. Os juros diminuíram 1% para a maioria dos programas. Poderiam ser menores, já que a inflação estimada para o exercício deverá ficar em torno de 4%.  Positivo foi o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns, com juros de 6,5%, mesma taxa para Incentivo à Inovação Tecnológica. Enfim, diante do cenário atual, foi um bom Plano de Safra, não fosse o Seguro. Como disse o Ministro da Agricultura, temos que olhar a floresta e não apenas a árvore.

Vamos tratar de plantar outra grande safra este ano, outros mil quilos para cada brasileiro.

* Roberto Rodrigues
Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV EESP.

Conheça o Mestrado Profissional em Agronegócio - da FGV EESP.

O Estado de S. Paulo - SP / ECONOMIA & NEGÓCIOS
Publicação: 11/06/2017

Portal FGVENG

Escolas FGV

Acompanhe na rede