A Repetição da História como Farsa

Os outsiders eleitos geralmente não terminam os mandatos no Brasil pela dificuldade de conviver com minorias no Congresso o que pode se repetir em 2018

As eleições de 2018 podem aventar algumas comparações com a eleição de 1989, por termos um presidente impopular e eleição muito fragmentada, mas uma diferença impar é que essa eleição não é solteira, mas sim acompanhada por governadores e parlamentos, sendo mais difícil para outsiders sem maquinas partidárias.  Um paralelo interessante que eu não vi ninguém ainda fazer é com as eleições que ocorreram no início da década de 60: período que antecedeu o golpe de Estado. 

Além disso, e mais importante, em 1989 não havia essa ressaca democrática que estamos vivendo agora. Era sim a festa da democracia com as primeiras eleições livres depois de quase 30 anos. Estamos vivendo um período de radicalização sem precedentes na história política brasileira a partir do fim da ditatura militar. Desde a democratização, não vemos tanto antagonismo e uma novidade atualmente é a falta de convicção com a democracia e com as próprias instituições no mundo contemporâneo, conquistas modernas que estamos menosprezando como a liberdade de imprensa e as próprias liberdades individuais

O governo JK de certa maneira era visto com um aliado do Getulio Vargas, mas igual ao governo Dilma, quebrou o país, ao exagerar nos gastos públicos com a construção de Brasília e o plano de Metas. Na verdade, ele não era do mesmo partido do Getúlio, mas sim do partido auxiliar do getulismo, o PSD. Para sermos mais precisos, o JK aparentemente foi o que o Eduardo Campos poderia ter sido. Ao expandir sobremaneira os gastos públicos para fazer 50 anos em 5, o presidente bossa nova acelerou excessivamente a economia, inflacionando os preços e gerando uma crise econômica que só foi saneada com o governo militar em 1965, por meio do plano PAEG de Campos e Bulhões.

JK era extremamente popular, mas não se esforçou muito para eleger o seu candidato, Marechal Lott, pois tinha certeza da reeleição posteriormente. Quem acabou por se eleger foi Jânio Quadros, um outsider da época, professor de Português, que numa carreira relâmpago, foi prefeito, governador e presidente em alguns poucos anos. Uma espécie de Doria que fez o que o esse último ainda não conseguiu.

Jânio Quadros, que tinha minoria no Congresso e não conseguia aprovar nenhuma proposta, realizou sua renúncia a fim de tentar retornar com mais poderes. Entretanto, o Congresso acabou por aceitar sua saída voluntária, e quem assumiu era o legitimo herdeiro do Getulismo, o vice João Goulart. A posse do vice foi conturbada e durante os primeiros anos, houve inclusive a figura de um primeiro ministro.

Como a história não se repete igualzinha, apenas de modo levemente parecido, vale notar que João Goulart possui distinta semelhança com a Dilma Rousseff. Foi um presidente fraco, que acabou radicalizando com as reformas de base, e foi derrubado pela crise econômica e pela classe média enraivecida. Porém, passou para a história como vítima de um golpe, e não pela sua própria fraqueza.

A eleição de 2018 pode trazer algum paralelo com a eleição presidencial que não ocorreu em 1965 por causa do golpe militar. Nesse ponto, JK tem algum paralelo com o Lula, que está sendo impedido de concorrer pela lei da ficha limpa. Já Kubitschek foi impedido de concorrer porque não houve eleições, havendo uma ruptura na frágil democracia da época. Além da crise na economia, em minha humilde opinião, a outra grande razão para o golpe foi impedir a volta do JK.

Duas lições nesse ligeiro retrospecto:

– a) A busca por outsider geralmente acaba mal. Jânio Quadros e Fernando Collor foram dois outsiders, que não terminaram os mandatos. São menos outsider dos que os de hoje, pois já tinham sido prefeito e governador dos seus respectivos estados. É importante, portanto, abrir os olhos para Jair Bolsonaro e Joaquim Barbosa, os modernos outsiders, que não exerceram cargos executivos e consequentemente podem ter bastante dificuldade de conviver com os outros poderes e chegarem ao fim dos seus eventuais mandatos. A própria Dilma Rousseff, de alguma forma, pode ser vista com outsider por nunca ter disputado eleição antes de 2010.

– b) As intervenções que ocorrem hoje são dentro da instituições, por isso mais suaves. A impeachment da Dilma não foi um golpe de Estado e o impedimento do Lula em ocorrer por ser condenado por um colegiado é bem mais civilizado do que impedir que a própria eleição ocorra.

Marcelo Kfoury Muinhos
*Professor e Coordenador do Centro Macro Brasil da FGV EESP

 

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