Sustentabilidade de retomada do PIB depende de ''quebra'' das incertezas

Economia só crescerá de forma mais acelerada após definição de agenda econômica do próximo governo; recuperação do crédito da pessoa física e renda irão sustentar consumo no ano que vem.

São Paulo - O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil teve uma recuperação mais disseminada entre os diferentes setores no terceiro trimestre, mas a sustentabilidade desta retomada ainda está sujeita a uma quebra das incertezas políticas e econômicas.

"Os investidores e os empresários precisam ter mais clareza sobre qual será a agenda econômica do nosso próximo governo. Enquanto isso estiver sob tantas dúvidas, os investimentos vão crescer, mas muito abaixo do que necessário para reverter o tamanho da queda observada durante a recessão", afirma o economista Thiago Curado, da 4E Consultoria.

Segundo ele, a recuperação das perdas econômicas provocadas pela crise depende de uma retomada mais forte dos investimentos, que acumularam contração de cerca de 34% entre o último trimestre de 2013 e os primeiros três meses deste ano.

No terceiro trimestre de 2017, o PIB avançou 0,1% ante o segundo trimestre e cresceu 1,4% na comparação anual (em relação ao terceiro trimestre de 2016). Já a formação bruta de capital fixo (FBCF, investimentos) registrou alta de 1,6% na margem (em relação ao trimestre imediatamente anterior) entre julho e setembro, primeira elevação desde o final de 2013. Os dados foram divulgados na última sexta pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Curado pontua que a continuidade do ciclo de expansão do PIB nos próximos meses será puxada pelo consumo das famílias, estimulado, por sua vez, por uma recuperação do crédito para a pessoa física.

"A melhora do mercado tem sido a fonte principal de retomada do consumo. Neste ano, houve uma expansão muito forte da renda real e começamos a ter uma reação da ocupação, com a ampliação das novas vagas de trabalho", diz Curado. "Em 2018, a renda não vai crescer tanto como em 2017, mas o avanço do crédito voltado para a pessoa física irá compensar", completa ele, prevendo alta de 1,1% do PIB neste ano e de 1,9% para 2018.

Segundo o IBGE, o consumo das famílias cresceu 1,2% entre julho e setembro, terceira alta trimestral seguida. Pelo lado da oferta, o PIB dos serviços aumentou 0,6%, também a terceira consecutiva. Para o professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP) Emerson Marçal, estes números mostram que a retomada do consumo está mais consolidada do que a da FBCF.

"As finanças das famílias estão entrando em ordem aos poucos, processo que, ao lado da elevação da renda, vem sustentando o consumo. Isso é bom, porque o consumo é cerca de 70% do PIB. Sem ele, a economia não cresce", comenta Marçal. Ele projeta alta de 1% para o PIB de 2017 e de 2,9% para o ano de 2018.

Potencial limitado

Por outro lado, Marçal admite que as incertezas econômicas e políticas limitam o potencial de expansão do PIB. "É claro que quanto mais cedo as questões políticas e fiscais forem resolvidas, mais rápido os juros de longo prazo caem e os investimentos voltam", diz.

Ainda sobre este ponto, Curado avalia que o número mais positivo da FBCF reflete mais uma necessidade de recomposição de depreciação de máquinas e equipamentos do que um aumento da produção para atender a demanda. "A indústria nacional tem, hoje, total capacidade de dar conta da demanda existente. A ociosidade dos fatores está muito elevada", ressalta Curado.

Segundo ele, a recuperação industrial ainda é bastante tímida perto das perdas provocadas pela crise. Segundo o IBGE, o segmento expandiu 0,8% no terceiro trimestre em relação ao segundo. Contra igual período de 2016, a alta é de 0,4%, enquanto em 12 meses até setembro, o PIB industrial acumula queda de 1,4%.

Já o professor de economia da FGV, Mauro Rochlin - que prevê aumento de 2,5% para o PIB de 2018 - diz que a volta do crescimento dos investimentos é consistente. Para ele, os números mais positivos do PIB mostram que a economia está se descolando dos choques no cenário político.

O Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, comentou na última sexta-feira, em rede social, que a alta de 0,1% do PIB "pode parecer baixa, mas é forte se analisada por setores". "Sem a agricultura, que caiu por razões sazonais (-0,3%), o crescimento foi de 1,1%", afirmou o ministro. "O avanço acumulado no ano até setembro é de 0,6%, número que já supera a previsão inicial dos economistas para 2017. Isto mostra que o Brasil segue uma trajetória de crescimento".

Para o ministro da Fazenda, o aumento de 1,6% nos investimentos mostra que as empresas estão otimistas com relação ao futuro do País.

Paula Salati

 

DCI Online - SP / Economia Data de publicação: 04/12/2017

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