Bioeconomia e desenvolvimento sustentável na Amazônia

Do global para o regional: os desafios impostos pela floresta

 

O Brasil possui cerca de 20% da biodiversidade do planeta, o que deve ser visto como um ativo econômico com muitas oportunidades de negócios. Mas, para que o país se torne uma potência em bioeconomia, é preciso de investimento, conhecimento e estratégia. A discussão sobre o tema levanta, entre outros aspectos, as principais ameaças e oportunidades da conservação da floresta amazônica. Afinal, o caminho para o desenvolvimento socioeconômico sustentável passa, necessariamente, pela vontade política e pela quebra de paradigmas em toda a cadeia produtiva, além de esbarrar em assuntos polêmicos como o combate ao desmatamento ilegal e a resolução das questões fundiárias.
 

“A Amazônia é o maior bioma brasileiro em extensão, e ocupa quase metade do território nacional. Nós precisamos ampliar esse debate em todas as áreas; seja na política, no setor acadêmico em pesquisas, na imprensa e envolver mais a participação da sociedade civil”, explica o coordenador do programa de pós-graduação em Finanças e Economia da FGV, Márcio Holland.

O conceito de bioeconomia pode ser resumido como a economia focada na utilização de recursos biológicos, renováveis ou recicláveis, com foco na sustentabilidade dos sistemas de produção, tendo como um dos pilares a inovação. Um modelo de desenvolvimento econômico que visa conciliar geração de renda e conservação ambiental. Apesar de não ser um assunto novo, ele é atual e necessário diante dos problemas causados pelas mudanças climáticas e pela escassez de recursos. 

“A pandemia acendeu dois grandes faróis: a segurança alimentar e a sustentabilidade. O Brasil tem um enorme patrimônio ambiental e uma juventude que quer defender o meio ambiente. É preciso agora buscar a convergências dos discursos e encontrar soluções baseadas em políticas públicas e ações privadas com vistas ao futuro desejado”, analisa o ex-ministro da Agricultura e professor da FGV, Roberto Rodrigues.

Para a ex-ministra do Meio Ambiente e co-presidente do Painel de Recursos Naturais da ONU, Izabella Teixeira, o Brasil precisa recuperar o protagonismo nas discussões internacionais:

“A diplomacia é o caminho e o momento não é para polarizações”. Izabella lembra, ainda, que o país sediou a Rio 92 e a Rio +20, mas que nos últimos anos vem ficando para trás no enfrentamento das questões climáticas, por exemplo. “Não se trata apenas de bioeconomia. Estamos falando de um conjunto de economias verdes, como são chamadas, para construir soluções para os desafios globais [...] é preciso definir que visão estratégica o Brasil quer ter para trilhar os próximos 30 anos”, alerta. 

Um dos principais desafios, segundo a ex-ministra, está relacionado ao controle da emissão de carbono na atmosfera, que acontece de duas formas distintas: pela atividade formal, que gera renda, como no caso das indústrias e da agropecuária, e pela atividade informal, que se refere à emissão por ações irregulares ou criminosas.

No primeiro caso, as pesquisas para a substituição de tecnologias para a geração de energia limpa e a adoção de novas práticas já mostram resultados animadores, como é o caso dos investimentos na pecuária de baixo carbono e da cadeia do açaí, que movimentou, em 2019, R$ 3 bilhões na economia da Amazônia, segundo pesquisa da Embrapa. Já no segundo caso, medidas mais severas para combater as ilegalidades precisam ser adotadas com urgência. O cenário é desafiador.

Para o professor e pesquisador Augusto Rocha, da Universidade Federal do Amazonas, existem muitas oportunidades para o desenvolvimento da bioeconomia no estado, mas os processos ainda são dissociados do que acontece no restante do país e do mundo. Apesar do alto recolhimento de impostos, Manaus possui um dos mais baixos IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – do país: 

“É preciso transpor o panorama macro para o panorama micro, ou seja, aplicar o que já se sabe sobre o tema de forma efetiva na região. Mas as mudanças devem integrar as atuais cadeias produtivas e respeitar o conhecimento dos povos amazônicos”.

A Amazônia é maior floresta tropical do mundo, com mais de 40 mil espécies de planta, onde vivem povos indígenas e comunidades tradicionais, com cerca de 240 línguas faladas. Estruturar modelos de desenvolvimento bioecológico para economias baseadas em biomas, por exemplo, possibilitaria enfrentar os desafios ambientais. Mas é necessário um olhar para além das questões ambientais e econômicas, reforça o professor da FGV, Daniel Vargas:

“Em boa parte, quando se fala em bioeconomia e desenvolvimento sustentável da Amazônia, a gente ainda tende a tratar o problema como prioritariamente econômico ou ambiental, mas ele também é um problema de conhecimento. Só o conhecimento científico pode ajudar na estruturação de bases e propostas consistentes” – declarou.

O debate sobre os Potenciais da bioeconomia na Amazônia faz parte da série Diálogos Amazônicos e está disponível no Youtube.

Data da publicação: 
15/06/2022
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