“Brasil precisa criar um ‘PIB verde'”, propõe pesquisador

Só assim, diz Daniel Vargas, do Observatório de Bioeconomia da FGV, país poderá medir e definir preços para sua riqueza ambiental.

Quanto vale o meio ambiente e qual peso ele tem – quer para o bem, quer para o mal – na atividade econômica de um país? Essa é uma daquelas perguntas de bilhões e bilhões (e mais bilhões) de dólares, cuja resposta poderia dar um novo sentido ao conceito de desenvolvimento das nações. É por isso que, pela complexidade da formulação, a dúvida soa insolúvel.

Mas um grupo de pesquisadores do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, apresentou um recente estudo que aponta uma saída para esse impasse. Essa turma quer incluir na contabilidade nacional não só os estoques ambientais, mas todo o valor das atividades sustentáveis praticadas no país. Sugere, para isso, a criação de um “PIB verde” para o Brasil.

“Por meio desse indicador, podemos trazer o nosso meio ambiente para dentro da economia e mostrá-lo ao mundo”, diz Daniel Vargas, coordenador do Observatório de Bioeconomia da FGV. “Com isso, poderemos dar preço às reservas ambientais, à biodiversidade oculta, à água abundante e a outras contribuições da agricultura e da indústria tropical.” E como esse índice funcionaria? É o que Vargas explica, a seguir, em entrevista ao Metrópoles.

Qual é o objetivo de criar um PIB que incorpore o verde?

A questão do meio ambiente não se resume mais a um problema moral, em que pessoas boas querem salvar o mundo das más. Também não podemos ver o verde apenas como um caso de polícia. Temos de trazer o meio ambiente para dentro da economia. Essa não é uma discussão nova, tem meio século e, ao longo desses anos, vem ganhando características diferentes. Mesmo porque a agenda ambiental passou a ser, mais do que nunca, um eixo fundamental para a competitividade entre os países. E temos de criar um ambiente em que a competição gere a sustentabilidade e não o contrário, como acontece hoje. Daí, a lógica do PIB verde.

Como calcular um PIB verde?

A ideia não é alterar a atual estrutura do cálculo do PIB. O objetivo é criar, ao lado do PIB tradicional, uma estrutura de contabilidade econômica ambiental. Isso para que ela dê visibilidade e fixe preços para coisas que, atualmente, são invisíveis. Ou seja, para os estoques e serviços ambientais fornecidos pelas florestas brasileiras, por exemplo. Depois disso, temos de garantir que essa estrutura amadureça, ganhe sofisticação até que, mais adiante, possamos unir os dois conjuntos de dados: o PIB e o que chamamos de fator verde. E esse padrão final pode ser uma referência para o mundo.

Como criar essa estrutura paralela?

Como disse, não vamos mexer no PIB como um todo. Isso seria impossível e, antes disso, seria insensato. O que queremos é criar um conjunto de contas satélites. Como o nome diz, elas giram em torno do PIB com um foco pré-definido. Entre essas contas, estão itens como água, biodiversidade, uso de energia limpa, o valor dos estoques de florestas, com detalhes como seu ritmo de depreciação. Esse pacote, com o tempo, produziria uma constelação de dados. Por meio dela, poderemos olhar não apenas para o fluxo econômico, mas como ele atua sobre um conjunto de referências ambientais.

O que é esse fator verde que o senhor mencionou?

As economias funcionam com base em fatores de produção. Eles são instrumentos a partir dos quais o lucro é contabilizado e produzido. Tradicionalmente, são três: capital, trabalho e terra/propriedade. Cada um tem seu sistema próprio de remuneração. Os países e empresas que mais crescem são aqueles que mobilizam esses fatores da melhor forma. Mas isso mudou.

Em qual aspecto?

O que está acontecendo não é apenas um jogo econômico de mobilização inteligente desses fatores. Existe um quarto eixo de custos e oportunidades. Nós o chamamos de fator verde. Ele entra nessa partida competindo com os demais fatores e criando uma nova lógica de investimento. Isso além de novas estratégias de desenvolvimento para os países.

No caso brasileiro, como está esse fator verde?

Ele cria um ônus para os países que têm uma economia ancorada na energia suja, como a Europa e os Estados Unidos. No caso do Brasil é o contrário. O verde, entre nós, representa um ativo. Mas esse diferencial não é eterno. Os fatores não são fixos no tempo. A Ásia, por exemplo, usou o trabalho como uma vantagem para seu desenvolvimento, mas isso já mudou. Por isso, temos de colocar em marcha uma economia que consiga dar preço para as vantagens que hoje temos, mas que são invisíveis para atrair recursos, incorporar tecnologia e financiar um conjunto de atividades cada vez mais sustentável.

Por que o PIB?

O PIB contém uma espécie de gramática compartilhada por todos os países. É um instrumento muito poderoso para que possamos visualizar uma economia, assim como é fundamental para auxiliar grandes decisões de investimento. Isso tanto do setor privado como do público. Ao trazer o verde para o PIB, damos visibilidade a nossas vantagens comparativas e um passo para precificar essas virtudes da economia brasileira. Ao mesmo tempo, criamos uma referência para tomar decisões de forma racional e abrangente. Por exemplo: queremos ser mais sustentáveis, mas para onde devemos olhar, quais setores estão avançando mais e quais estão ficando para trás? Com um PIB verde, teremos como saber isso.

O quão madura está a discussão do cálculo do PIB Verde?

O IBGE já possui o embrião dessa ideia. Ao longo dos anos, ele criou algumas dessas contas satélites às quais me referi para setores específicos. Mas o conjunto de atividades econômicas ambientais incorporadas nessa contabilidade ainda é muito pequeno. Assim como são poucos os dados disponíveis. Mas já temos uma base para essa discussão. Além disso, mais de 30 países já possuem sistemas de contabilidade econômica ambiental em andamento. Essa não é uma ideia que surge do nada.

O que fazer para, na prática, para avançar com essa medida?

A primeira coisa é fazer com que as lideranças brasileiras compreendam e reconheçam como a adoção desse regime de contabilidade pode ser importante para o avanço da economia e da transição verde no Brasil. Isso começa pelo governo. Assim, encaminhamos essa proposta para diversos órgãos governamentais, mas também para outros setores da economia.

Pensando em setores da economia, esse tipo de proposta seria bem-recebida pelo agronegócio?

Sim. Hoje, um produtor mantém reservas florestais que podem ir de 20% a 80% de sua propriedade, dependendo do lugar onde está instalado. Isso significa que a produção de alimentos brasileira também exporta para o mundo um manancial de serviços ambientais pelos quais ninguém paga. Uma vez devidamente contabilizado, esse ativo poderá ter preço. O agronegócio seria um grande beneficiado com essa nova contabilidade do verde.

E o preservacionista-raiz apoiaria essa ideia?

Sem dúvida. Os estoques de áreas preservadas também vão passar a ter valor, o que pode ser um incentivo à preservação. Além de exigências normativas e dos valores da sociedade, passa a existir um estímulo de mercado para a manutenção do meio ambiente. Por isso entendemos que a proposta do PIB verde supera dicotomias, vai além da polarização.

Uma vez precificado, alguém vai querer pagar pelo verde?

Sim. O comércio internacional é cada vez mais um espaço de reconhecimento e retribuição do que é mais sustentável. Os investimentos financeiros comprometidos com a agenda verde buscam países e atividades comprovadamente sustentáveis. A geopolítica é, em todo o mundo, um capítulo da transição verde. Com o PIB Verde, ajudamos a mostrar, objetivamente, as vantagens econômicas do Brasil.

Em quanto tempo esse tipo de contabilidade pode ser estruturada?

No prazo da gestão de um governo, quatro anos. Ou menos até se for prioridade. E é importante que o Brasil faça isso. Hoje, são os países desenvolvidos que definem os parâmetros de referência do que é verde, do que conta como ambiental, do que tem preço e valor. Aí, nós passamos 20 anos tentando produzir ciência e regulamentos para mostrar nossas características particulares, mas sem nunca conseguir chegar lá. Queremos inverter esse jogo, dar o pontapé inicial. Se fizermos isso, poderemos ser protagonistas nesse campo.

 

Fonte: 
Metrópoles
Data da publicação: 
28/08/2023
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