Economistas debatem estratégias de desenvolvimento produtivo na FGV/EESP
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Para Roberto Mangabeira Unger, a reforma na economia e na política está ligada à reforma das ideais, por meio de uma profunda transformação educacional e institucional.
Para além da crise atual, o Brasil precisa pensar em uma estratégia de desenvolvimento que permita aliar desenvolvimento e crescimento econômico com aumento de produtividade e levar o Brasil a outro patamar, por meio de uma transformação no sistema educacional, que privilegie a inovação e o empreendedorismo.
A frase acima apresenta todas as premissas que orientaram as falas de Roberto Mangabeira Unger, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo Dilma, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Antonio Delfim Netto, ex-ministros da Economia, com mediação de Yoshiaki Nakano, diretor da FGV/EESP, em evento que ocorreu na FGV no dia 26 de agosto.
Mangabeira Unger estruturou sua exposição em 6 teses que avaliaram as circunstâncias atuais, as mudanças necessárias para que haja uma reorientação radical da política econômica e, por fim, firmaram os paradigmas para a formação de um projeto nacional.
As mais contundentes referiam-se ao aproveitamento do que o professor Mangabeira Unger chamou de “vanguarda emergente”, que seria a reunião de uma burguesia empreendedora, que vem de baixo, estuda à noite, tem iniciativa e vontade de vencer, e um contingente de trabalhadores pobres que também trabalham com afinco para melhorar suas condições.
Essa “vanguarda emergente”, porém, precisa passar por um processo educacional que privilegie a inovação e o empreendedorismo. “O sistema de educação brasileiro atual prepara um cidadão francês do século XIX, não uma pessoa preparada para os desafios brasileiros do século XXI”, criticou o ministro durante o evento.
Outra questão apontada está relacionada à necessidade de ajuste fiscal, assunto que está na pauta do dia nas negociações da equipe econômica com o Congresso. Para o ministro, o ajuste fiscal precisa ir além da mera conquista da confiança do investidor e atração de investimentos, em geral por meio de política de ´contração-expansionista´ oferecida como moeda de troca. Segundo Mangabeira Unger, “o verdadeiro propósito de um ajuste fiscal é assegurar que o país não dependa da confiança do investidor, mas que tenha margem de manobra para lidar com crises. O projeto de desenvolvimento deve ser simultâneo ao ajuste fiscal”.
Além disso, esse projeto não pode ser utilizado para compensar o processo de desvalorização cambial. “É preciso ter uma política de câmbio que nos dê liberdade para importar altas tecnológicas e permitir que haja desenvolvimento de uma indústria inovadora”.
Ao assumir a palavra, o ex-ministro Bresser-Pereira reafirmou a importância de se criar um projeto estruturado de desenvolvimento produtivo, porém apontou dois grandes desafios que seriam recuperar a ideia de nação, a criação de uma poupança institucional e a reflexão a respeito de novos arranjos institucionais. “Quando eu olho o Brasil, tenho a impressão de que nossa opção pelo consumo está relacionada ao fato de que não estamos dispostos a fazer nenhum sacrifício. Para isso, recorremos a Keynes para justificar que a poupança vem depois do investimento, porém nos esquecemos que isso refere-se ao longo prazo. No curto prazo, é preciso ter uma poupança pública produtiva”.
Em uma fala mais curta, Delfim Netto tentou relativizar o debate, resgatando que a falta de incentivos para a poupança nacional é histórica. “Desde João VI, passamos por várias crises e o resultado não é tão ruim. Somos a sétima economia do mundo, com crescimento médio anual e 6,5% nos últimos 50 anos, se bem que acompanhado de um aumento de desigualdade e com crescimento da dívida interna. Até 2013, isso não era um problema. Passamos a destruir este capital em 2014: esgotaram os recursos públicos para conquistar as eleições”.
Delfim também concorda que é preciso repensar um novo modelo de desenvolvimento econômico, voltado à construção de uma sociedade civilizada. “Uma sociedade econômica que nos permita gozar da igualdade que, no fundo, está preconizada pela Constituição de 1988”, conclui o ex-ministro.
