Uma Indústria que Terá que se Reinventar

A queda da taxa básica de juros – Selic – a patamares mínimos históricos desde a implementação do Real, em junho de 1994, coloca um novo desafio a um segmento do mercado financeiro habituado a expressivos ganhos oriundos dos juros altos: a renda fixa.

benchmark (ou referencial) de rentabilidade desse segmento é dado pela taxa DI de um dia. Em geral, os produtos de renda fixa utilizam esse referencial na remuneração dos investimentos, apresentando algumas variantes de acordo com a característica do produto.

O comportamento da taxa DI é balizado pelo da Taxa Selic, uma vez que ambas as taxas são formadas a partir de operações de empréstimo entre instituições financeiras pelo prazo de um dia.

Isso significa que a queda da Selic também levou a taxa DI a patamares mínimos históricos. Com isso, a rentabilidade das aplicações de renda fixa caiu expressivamente ao longo dos útlimos trimestres.

Com a meta da taxa Selic fixada em 4,5% aa pelo BC e a inflação medida pelo IPCA acumulada em 12 meses na casa do 3,3%, os ganhos em termos de juros reais das aplicações de renda fixa evaporaram.

Com isso, investidores têm se perguntado acerca de como devem alocar suas aplicações a partir de agora. É natural que parte desses investimentos tenham se direcionado a outros produtos que envolvam um maior grau de risco.

A eventual persistência de juros baixos no Brasil reforçará esse movimento nos próximos trimestres, o que colocará novos desafios à indústria da renda fixa brasileira.

Uma eventual saída para esse impasse seria dada pela desvinculação definitiva da taxa DI como referencial da indústria de renda fixa. De fato, não há o menor sentido em referenciar todo um segmento de aplicações financeiras, cujos prazos de aplicações variam no tempo, à taxa de curtíssimo prazo de empréstimo entre instituições financeiras.

A taxa DI pode ser considerada (praticamente) uma taxa livre de risco, só apresentando um risco marginalmente maior à taxa Selic. Não há sentido algum essa taxa representar o referencial da quase totalidade de operações de renda fixa no País, independentemente do espectro de prazo ou risco da aplicação.

O uso da taxa DI como referencial da renda fixa, em boa medida, tem como origem o uso da taxa de juros de curtíssimo prazo para referenciar a remuneração de aplicações financeiras durante o período de inflação elevada no Brasil. A queda da inflação não promoveu uma mudança nessa mecânica e o uso dessa taxa para referenciar aplicações de renda fixa no Brasil ainda representa um entulho do período de inflação alta.

A transformação da renda fixa para produtos e referenciais mais modernos não se processou ao longo das últimas décadas devido ao conforto que as altas taxas de juros proporcionavam aos gestores e investidores.

A queda da taxa Selic (e, por consequência, da taxa DI) tira gestores e investidores dessa zona de conforto. Caso essa taxa permaneça em patamar baixo, fatalmente a indústria de renda fixa será forçada a se mudar, apresentando produtos mais modernos e atrativos aos investidores e abandonando o resquício da taxa DI como referencial de remuneração.


Rogério Mori, professor e coordenador dos Cursos Master.


Conheça mais sobre os Cursos de Pós-Graduação (MASTER) da FGV EESP

 

Fonte: 
Conjuntura Brasil
Data da publicação: 
19/12/2019
Compartilhe
Veja a lista completa de notícias

Receba as notícias da FGV EESP