É A Eleição Estúpido

A maior dúvida dessa eleição é sobre o vai prevalecer: o sentimento anti-establishment ou a estrutura politico-partidária


Amanhã o Copom decide novamente a taxa de juros Selic que será vigente nos próximos 45 dias. Como houve uma ligeira melhora do cenário desde a última reunião, os agentes econômicos que acompanham o comitê não esperam nenhuma surpresa e a taxa deve seguir nos 6,5%. Também não vejo nenhuma razão para alteração no comunicado posterior à reunião. A proximidade da eleição também diminui a chance de alteração da taxa de juros nas duas próximas reuniões, a não ser que haja grande alteração no cenário. A seguir traço algumas reflexões sobre a situação eleitoral, dado ser esse o maior fator risco de alteração no cenário econômico.

Considero ainda que a maior dúvida dessa eleição é sobre o vai prevalecer: o sentimento anti-establishment ou a estrutura partidária. Como a campanha ainda não começou, essa dúvida ainda não pode ser dirimida. Segundo a pesquisa IPSOs divulgada recentemente, 50% prefere votar em alguém que é político de carreira contra 39% em dezembro. Além disso, 41% preverem algum que tenha experiência política contra 31% anteriormente. Mais ainda, 56% dos entrevistados querem algum que seja ético.

Nas últimas semanas, ocorreu alguma melhora nos ativos financeiros depois do acordo firmado pelo pré-candidato Geraldo Alckmim com os partidos chamados de centro. Houve uma sensação que o candidato tucano aumentou a sua chance de ir para o segundo turno, pois aumentou o seu tempo de televisão durante a campanha eleitoral. Porém, ainda não houve nenhuma pesquisa que corroborasse essa percepção do mercado financeiro. Além disso, ainda é muito difícil avaliar o papel das redes sociais, se serão complementares ou substitutas em relação a TV e as mídias mais tradicionais.

É interessante notar que apenas o PSDB tenha conseguido tecer um arranjo partidário mais significativo. Ciro Gomes e Bolsonaro, dado que não conseguiram atrair esses partidos, agora os denegrem, clássico caso da fábula “A raposa e as uvas”. De qualquer maneira, se for a raiva da população o fator preponderante na eleição desse ano, ao invés da estrutura partidária, o acordo com os partidos de centro, ceivados de políticos acusados de corrupção, pode ter sido um tiro no pé.

Não deixa de ser inusitado um candidato que é líder nas pesquisas, com chances reais de ir para o segundo turno como o capitão reformado, não tenha conseguido atrair nenhum desses partidos essencialmente fisiológicos para a sua candidatura. Outra constatação digna de nota é que num país onde quase metade dos vice-presidentes assumiram eventualmente os mandatos, nenhum candidato tenha conseguido ainda anunciar o vice-presidente. No caso do PSDB, que aparentemente tem nove partidos apoiando, é mais difícil escolher o companheiro de chapa dentro dessa coligação, mas para quem não consegue atrair outros partidos não deveria ser assim tão difícil.

A outra grande incógnita da eleição é quem representará o PT e qual será a capacidade de transferência do ex-presidente Lula, que dentro dos meus parcos conhecimentos de legislação eleitoral, está virtualmente afastado da eleição. Se Lula conseguir passar metade da sua intenção de voto atual para o mais cotado substituto, Fernando Haddad, as chances do candidato do PT de chegar ao segundo turno são reais.

Portanto, há chances, se o fator preponderante for a estrutura partidária, de termos novamente um segundo turno entre PT e PSDB. Mas se a revolta contra o sistema dominar e os eleitores expressarem a sua raiva no voto, atribuo grande chance do Bolsonaro ir para o segundo turno. E digo mais, o ex-capitão só teria chance se vencer a eleição se for contra um entreposto de Lula. Já Alckmin tem grande chance de vencer contra qualquer candidato no segundo turno, mas ele só irá para o turno decisivo se conseguir descontruir a candidatura de Bolsonaro.


Marcelo Kfoury Muinhos
Professor e Coordenador do Centro Macro Brasil da FGV EESP
 

 

Fonte: 
Mosaico de Economia | Estadão
Data da publicação: 
31/07/2018
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