Educação e produtividade

Entre as medidas paradas, uma das mais importantes é a implementação da Base Nacional Curricular Comum (BNCC).

Por que a produtividade no Brasil é muito baixa, comprometendo a competitividade da economia brasileira no comércio mundial? Para responder a essa pergunta, a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomercioSP) promoveu um seminário com a presença de especialistas de distintas inclinações doutrinárias. Embora tenham atribuído a baixa produtividade a diferentes fatores, eles foram unânimes ao reconhecer que o Brasil só conseguirá aumentar sua produtividade quando ampliar os investimentos em educação profissional, multiplicando a oferta de cursos técnicos principalmente para a população jovem.

“Desde 1980, a produtividade não se mexe no Brasil. É como se fosse um eletrocardiograma de morto. Há ilhas de excelência no setor financeiro, de informática e de telecomunicações, mas é muito pouco”, disse José Pastore, da Faculdade de Economia da USP. “Até 1980, nossa produtividade era parecida com a coreana e o dobro da chinesa, mas paramos de crescer e, em 2011, o crescimento da produtividade do Brasil ficou abaixo dos países africanos”, afirmou André Portela, da Escola de Economia da FGV EESP.

No momento em que o Ministério da Educação (MEC) tem vários programas parados, por causa de uma crise gerada por inépcia administrativa e disputas ideológicas responsáveis por uma escalada de exonerações e remanejamento de cargos, o evento da FecomercioSP não poderia ter sido mais oportuno. Entre as medidas paradas, uma das mais importantes é a implementação da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), que incluiu a formação técnica e profissional no currículo do ensino médio. Por causa da estagnação do MEC, as redes de ensino, que iniciaram o ano letivo há mais de um mês e meio, continuam até hoje sem saber o futuro das iniciativas que vinham tomando desde janeiro, com base na BNCC.

“Temos cem anos de atraso educacional e reduzida oferta de formação técnica e profissional. Atualmente, o jovem que acabou de completar o ensino médio tem formação deficiente em matemática e português e é difícil ele se inserir no mundo do trabalho. Além disso, mais de 80% dos jovens brasileiros não vão para a universidade. Prepará-los para o trabalho é ganhar produtividade”, afirmou Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia da Confederação Nacional da Indústria. Segundo dados da Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia, apenas 11,1% dos alunos na faixa etária fazem algum tipo de curso de formação profissional. Não têm, assim, condições de acompanhar a revolução que a Indústria 4.0 vem causando na economia mundial. No Japão, na Áustria e na Finlândia, o índice varia de 70% a 76% da população jovem.

Os números mostram as dificuldades enfrentadas pelo Brasil para formar capital humano e revelam que o País continua incapaz de desenvolver mão de obra tão produtiva e adaptável quanto a de outras economias emergentes.

As falhas estruturais na preparação e qualificação técnica das novas gerações, a fim de que possam atuar em modos de produção diferentes dos atuais, também continuam sendo um dos obstáculos para a implementação, entre nós, de sistemas industriais inteligentes, capazes de conectar máquinas, agendar manutenções e prever falhas nos processos. No evento da FecomercioSP, os especialistas lembraram ainda que, além da questão da produtividade, a população brasileira está envelhecendo, o que aumenta ainda mais a importância dos investimentos em ensino profissional destinado aos jovens.

Nos governos lulopetistas, a gestão do MEC foi marcada por iniciativas tomadas a esmo, sem coerência e pertinência. No atual governo, o problema permanece, dadas as tentativas de converter a “cosmovisão bíblica” como diretriz para a reformulação de currículos. Com isso, o Brasil continua na contramão dos países desenvolvidos, postergando uma revolução educacional que é essencial para o desenvolvimento de longo prazo e para emancipação das novas gerações.

Fonte: 
Estadão.com - SP
Data da publicação: 
04/04/2019
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