O escândalo das carnes pode envenenar a retomada da economia?

Países começam a bloquear carne brasileira, nossa terceira principal exportação. O país corre o risco de afundar de novo na recessão?.

Começaram as restrições à carne brasileira – nossa terceira principal exportação, atrás só da soja e do minério de ferro.

A China suspendeu embarques por uma semana e a Coreia do Sul bloqueou produtos da BRF (mas já voltou atrás). Chile, Hong Kong e Egito também anunciaram suspensões temporárias.

A União Europeia já garantiu que nada com origem nos estabelecimentos investigados entra no bloco.

O estopim foi a “Operação da Carne Fraca” da Polícia Federal, que revelou o envolvimento de fiscais e frigoríficos em fraudes e propinas para liberar mercadorias adulteradas e estragadas.

“No curto prazo, é muito ruim. Você leva muito tempo para construir um patrimônio de certificações e quando dá errado, a suspensão é imediata. Se um grande mercado comprador proibir durante um determinado tempo, isso tem um efeito cascata sobre o setor”, diz Marcos Troyjo, diretor do BRIClab da Universidade de Columbia.

33 países ou blocos importaram produtos dos estabelecimentos investigados na Operação Carne Fraca nos últimos 60 dias.

Mas segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, o volume movimentado pelas empresas investigadas é de menos de 1% do total exportado pelo setor em 2016.

E mesmo se os países importadores quisessem, parar a importação por muito tempo causaria desabastecimento do mercado.

O Brasil responde por 38% do volume de comércio mundial de frango, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

“O barulho parece ser mais interno do que externo. É improvável que o Brasil perca a liderança global em carnes pois existem poucos fornecedores desses produtos no mundo. Não há muita alternativa”, diz Marcel Motta, diretor geral da consultoria Euromonitor International no Brasil.

As ações da JBS e da BRF, duas gigantes citadas no escândalo, desabaram na sexta-feira mas já recuperaram boa parte das perdas – o que indica que o mercado acha que as restrições terão vida curta.

Produção

De acordo com a Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o setor de proteínas emprega mais de 7 milhões de pessoas e as restrições causarão perda de empregos e renda. Mas do ponto de vista macro, o impacto é baixo.

“É um efeito marginal na economia como um todo, o impacto não é grande. Não é isso que vai fazer o país crescer ou não”, diz Felippe Serigati, economista do Centro de Agronegócio da FGV/EESP.

Ele diz que o efeito deve ser mais sentido em estados como Santa Catarina, que tem grande concentração de pequenos produtores de aves, e Paraná, o maior produtor em volume total.

Uma possível consequência para o consumidor brasileiro é que com menos produto saindo do país, a oferta aumente internamente e o preço caia, e isso em um cenário onde a inflação de alimentos já estava caindo antes do escândalo.

Negociações

No caso da UE, o medo é as negociações do acordo de livre comércio com o Mercosul sejam afetadas.

“Eles são um mercado grande, diverso e que cria ferramentas injustas de competição – tarifárias, não tarifárias e de subsídios. Obviamente, uma coisa dessas reforça o lobby interno da produção local, que sempre usou o argumento da segurança alimentar”, diz Troyjo.

De acordo com um estudo encomendado pela Comissão Europeia, as as vendas de produtos agrícolas do Mercosul para a UE poderiam crescer em mais de R$ 50 bilhões em 10 anos mesmo com um acordo modesto.

Uma nova rodada de negociações em torno do tratado começou ontem em Buenos Aires, na Argentina.

Exame.com - SP / Economia
Publicação: 21/03/2017

 

Data da publicação: 
22/03/2017
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